A auditoria interna é a forma de a empresa descobrir, antes da certificadora, onde o sistema não está funcionando. Feita do jeito certo, ela encontra problemas reais e gera melhoria. Feita só para cumprir tabela, vira um checklist preenchido às pressas que o auditor externo enxerga de longe.
O que a cláusula 9.2 exige
A ISO 9001 pede auditorias internas a intervalos planejados para verificar se o sistema atende aos requisitos da própria empresa e da norma, e se está implementado e mantido de forma eficaz. Para isso, a empresa precisa (veja a cláusula 9.2 explicada):
- planejar e manter um programa de auditoria, com frequência, métodos, responsabilidades, requisitos de planejamento e de relato, levando em conta a importância dos processos, as mudanças que afetam a empresa e os resultados de auditorias anteriores;
- definir critérios e escopo de cada auditoria;
- escolher auditores e conduzir as auditorias de forma a garantir objetividade e imparcialidade;
- relatar os resultados à gerência pertinente;
- tomar correção e ação corretiva sem demora indevida;
- reter informação documentada como evidência do programa e dos resultados.
A norma indica a ISO 19011 como orientação para auditorias. Ela não é requisito, mas é a referência de boas práticas para formar auditores e organizar o processo.
Passo 1: monte o programa anual
O programa é o planejamento do período: quais processos serão auditados, em que mês e por quem. Não precisa auditar tudo de uma vez. Processos mais críticos, que mudaram ou que tiveram problemas podem ser auditados com mais frequência. O importante é que todos os processos e requisitos do escopo sejam cobertos no ciclo planejado.
Exemplo ilustrativo de programa para uma metalúrgica fictícia de 40 funcionários:
| Processo | Motivo da frequência | Março | Setembro | Auditor |
|---|---|---|---|---|
| Comercial e análise de pedidos | Reclamações de prazo no ano anterior | X | X | Analista de compras |
| Produção | Processo central, maior risco | X | X | Supervisor de manutenção |
| Compras e fornecedores | Novo fornecedor de aço | X | Analista comercial | |
| Qualidade e inspeção | Precisa de auditor de fora da área | X | Auditor externo contratado | |
| Direção, riscos e análise crítica | Requisitos de liderança | X | Auditor externo contratado | |
| Recursos humanos | Sem mudanças relevantes | X | Analista da qualidade |
O modelo de programa anual de auditorias tem esse formato pronto.
Passo 2: escolha auditores imparciais e competentes
A norma pede objetividade e imparcialidade. A forma mais direta de demonstrar isso: ninguém audita o próprio trabalho. O analista da qualidade pode auditar a produção, mas não o processo da qualidade.
Em empresa pequena, as saídas mais práticas são:
- formar auditores em várias áreas e cruzar: compras audita produção, produção audita comercial;
- contratar um auditor externo só para os processos em que todos os auditores internos têm envolvimento;
- trocar auditorias com uma empresa parceira, com acordo de confidencialidade.
Competência também é requisito (7.2). Guarde evidência: curso de auditor interno, auditorias feitas como acompanhante, conhecimento da norma e do processo auditado.
Passo 3: faça o plano de cada auditoria
O plano detalha uma auditoria específica: escopo, critérios (requisitos da norma, procedimentos internos, requisitos do cliente), data, horário de cada processo, auditor e auditados. Envie com antecedência para que as pessoas se organizem. O modelo de plano de auditoria interna mostra os campos.
Passo 4: prepare o checklist
O checklist é um roteiro, não um questionário de sim ou não. Monte por processo, com perguntas abertas e com a evidência que você quer ver. Em vez de perguntar se existe controle de calibração, peça para ver o certificado do último instrumento usado na inspeção final. Use o modelo de checklist de auditoria interna como ponto de partida e adapte ao seu processo.
Passo 5: conduza a auditoria
- Reunião de abertura. Rápida: escopo, horários e como as constatações serão comunicadas.
- Coleta de evidências. Entreviste quem faz, observe o trabalho e confira registros por amostragem. Siga o fluxo: pegue um pedido e veja se ele passou por cada controle previsto.
- Anote fatos. Número do registro, data, nome do documento, o que foi visto. Evidência objetiva é aquela que outra pessoa consegue verificar.
- Reunião de encerramento. Apresente as constatações aos responsáveis antes de escrever o relatório. Ninguém deve ser surpreendido pelo relatório.
Passo 6: escreva as constatações
Uma não conformidade bem escrita tem três partes: o requisito, a evidência e a constatação. Compare:
| Mal escrita | Bem escrita |
|---|---|
| Calibração com problema | Requisito: 7.1.5.2. Evidência: micrômetro MI-07 em uso na inspeção final em 12/03, com calibração vencida em 28/02. Constatação: instrumento usado para liberar produto sem calibração válida. |
| Treinamentos incompletos | Requisito: 7.2. Evidência: operador admitido em janeiro opera a prensa P-03 sem registro de treinamento na instrução IT-PR-05. Constatação: não há evidência de competência para a função. |
Registre também oportunidades de melhoria e pontos fortes. Eles ajudam a direção a entender o estado real do sistema.
Passo 7: relatório e tratamento
O relatório resume escopo, critérios, auditores, processos auditados, constatações e uma conclusão sobre a eficácia do sistema. O modelo de relatório de auditoria interna traz um exemplo preenchido. Envie para os responsáveis das áreas e para a direção.
Cada não conformidade precisa de correção, análise de causa e ação corretiva, com prazo. O caminho completo está em como tratar não conformidade e ação corretiva. Os resultados entram depois na análise crítica pela direção.
No PrismaBiz, o programa anual, os checklists e as constatações da auditoria interna ficam registrados no sistema, com acompanhamento do tratamento até o fechamento.
Exemplo ilustrativo: auditoria do processo de compras
Na metalúrgica fictícia do programa acima, o analista comercial auditou compras em março. Pegou três pedidos de compra do mês anterior e rastreou cada um: o fornecedor estava na lista de aprovados? O pedido trazia especificação do material e revisão do desenho? O recebimento foi inspecionado?
Dois pedidos estavam completos. O terceiro era de um fornecedor de tratamento térmico que não constava da lista de aprovados e foi usado por urgência. A constatação foi registrada contra a 8.4.1: fornecedor externo usado sem avaliação. A causa encontrada foi a falta de um caminho definido para compras urgentes. A ação foi criar uma regra de qualificação provisória, com aprovação da qualidade e inspeção reforçada no recebimento.
O que o auditor da certificadora costuma pedir
- O programa de auditoria e o critério usado para definir a frequência de cada processo.
- A evidência de que todos os processos e requisitos do escopo foram auditados.
- A evidência de competência dos auditores internos.
- Como foi garantido que ninguém auditou o próprio trabalho.
- Os relatórios e o tratamento das não conformidades encontradas.
- Os resultados apresentados na análise crítica pela direção.
Uma auditoria interna sem nenhuma constatação, em um sistema recém-implantado, costuma gerar desconfiança. Não é para inventar problema. É para auditar com profundidade suficiente para achar os que existem.
Como a auditoria interna se liga ao resto do sistema
A auditoria interna não é um evento isolado. Ela recebe informação de outras partes do sistema e devolve informação para elas:
- Antes: o mapa de processos define o que auditar; os indicadores, as reclamações e as não conformidades abertas mostram onde olhar com mais cuidado.
- Durante: o auditor verifica se os riscos levantados na 6.1 têm ações e se os objetivos da qualidade estão sendo acompanhados no processo auditado.
- Depois: as constatações viram ações corretivas, e o resumo dos resultados é entrada obrigatória da análise crítica pela direção (9.3.2).
Quando o próximo programa for montado, os resultados desta auditoria entram como critério: processo com muitas constatações ganha mais atenção no ciclo seguinte. É assim que a norma espera que o programa seja ajustado ao longo do tempo.
Erros comuns
- Auditar só documentos, sem ir ao local onde o trabalho acontece.
- Usar o mesmo checklist genérico em todos os processos.
- Escrever constatação sem evidência ou sem requisito.
- Deixar a auditoria para a semana anterior à certificação, sem tempo de tratar o que foi encontrado.
- Fechar a não conformidade só com a correção.