Toda empresa tem não conformidade. O que a ISO 9001 avalia é o que acontece depois: se o problema foi contido, se a causa foi encontrada e se a ação tomada impediu que ele voltasse. Esse é o tema da cláusula 10.2, um ponto que o auditor verifica em toda auditoria.

O que é não conformidade

Não conformidade é o não atendimento de um requisito. O requisito pode ser do cliente (desenho, especificação, prazo), da norma, da legislação ou da própria empresa (um procedimento, uma instrução). Ela pode aparecer em vários lugares:

Quando a não conformidade está em um produto ou serviço, também vale a cláusula 8.7: identificar, segregar, corrigir e decidir o destino da saída não conforme, com registro de quem decidiu.

Correção, ação corretiva e prevenção

Confundir esses termos é o caminho mais curto para uma não conformidade mal tratada.

TermoO que éExemplo
CorreçãoAção para eliminar a não conformidade detectadaRetrabalhar as peças fora da medida
ContençãoAção imediata para o problema não avançar (termo de uso prático, comum no setor automotivo)Bloquear o lote no estoque e inspecionar o que já está no cliente
Ação corretivaAção para eliminar a causa e evitar que a não conformidade se repitaTrocar o dispositivo desgastado e incluí-lo no plano de manutenção
PrevençãoAção sobre um problema que ainda não ocorreuAplicar a mesma melhoria em outras máquinas iguais

A versão 2015 não tem mais uma cláusula de ação preventiva. A prevenção é tratada pela abordagem de riscos e oportunidades (6.1) e pela própria 10.2, que pede verificar se não conformidades similares existem ou podem ocorrer.

O que a cláusula 10.2 pede

Quando ocorre uma não conformidade, inclusive as que vêm de reclamação, a empresa deve (detalhes na cláusula 10.2 explicada):

  1. reagir: controlar e corrigir a não conformidade e lidar com as consequências;
  2. avaliar a necessidade de ação para eliminar a causa, analisando o problema, determinando as causas e verificando se existem ou podem ocorrer não conformidades similares;
  3. implementar as ações necessárias;
  4. analisar criticamente a eficácia das ações corretivas;
  5. atualizar riscos e oportunidades, se necessário;
  6. fazer mudanças no sistema, se necessário.

A norma também diz que as ações corretivas devem ser apropriadas aos efeitos da não conformidade. Uma falha pequena e isolada não exige o mesmo esforço que uma reclamação grave de cliente. E pede reter registro da natureza da não conformidade, das ações tomadas e do resultado das ações corretivas.

Passo a passo para tratar uma não conformidade

1. Registre e descreva

Descreva o que aconteceu, onde, quando, em qual produto ou lote, em que quantidade e qual requisito não foi atendido. Uma boa descrição responde ao que, onde, quando e quanto, sem opinião sobre a causa. O modelo de relatório de não conformidade (RNC) tem esses campos.

2. Contenha e corrija

Separe o que está afetado e verifique estoque, produto em processo e o que já foi entregue. Decida o destino: retrabalho, refugo ou uso com concessão do cliente. Avise o cliente quando houver risco para ele.

3. Decida se precisa de ação corretiva

Nem toda não conformidade exige análise de causa formal. Defina um critério por escrito. Por exemplo: toda reclamação de cliente, toda constatação de auditoria e todo problema que se repete viram ação corretiva. Falhas isoladas e de baixo impacto podem ficar só com correção, desde que sejam acompanhadas para identificar repetição.

4. Encontre a causa raiz

Monte uma pequena equipe com quem conhece o processo. Use o diagrama de Ishikawa para levantar causas possíveis e os 5 porquês para aprofundar a mais provável. Confirme a causa com dados antes de agir.

5. Procure problemas parecidos

A mesma causa pode estar presente em outra máquina, outro produto, outra obra ou outro turno. Verificar isso é requisito, não opcional.

6. Planeje a ação

Para cada ação, defina o que será feito, quem é o responsável, o prazo e como será feito. O plano de ação 5W2H organiza isso numa tabela simples.

7. Verifique a eficácia

Defina antes como vai saber se a ação funcionou e quando vai verificar. A verificação acontece depois de um tempo de funcionamento, não no dia em que a ação foi implementada.

8. Atualize o sistema e feche

Se a causa revelou um risco que não estava mapeado, atualize a matriz de riscos. Se a ação mudou um procedimento, revise o documento e treine quem usa. Só então feche o registro.

Exemplo ilustrativo: reclamação em uma fabricante de autopeças

Imagine uma fabricante fictícia de autopeças com 60 funcionários. O cliente devolveu um lote de suportes com um furo fora da posição.

EtapaRegistro
DescriçãoLote 2310: furo de 8 mm deslocado 0,6 mm em relação ao desenho rev. C, com tolerância de 0,2 mm. Peças reprovadas na montagem do cliente.
ContençãoLote bloqueado no estoque; inspeção 100% no estoque e no cliente; peças boas separadas e reenviadas.
CorreçãoPeças com furo deslocado refugadas, porque não admitiam retrabalho.
CausaPino de posicionamento do dispositivo de furação desgastado. O dispositivo não estava no plano de manutenção preventiva.
SimilaresOutros três dispositivos de furação também estavam fora do plano.
Ação corretivaIncluir todos os dispositivos no plano de manutenção, com verificação dimensional periódica dos pinos; incluir a conferência do dispositivo no checklist de setup.
EficáciaCritério definido: nenhuma reclamação ou refugo por posição de furo nos três meses seguintes e checklists de setup preenchidos. Verificação marcada no plano.

Repare que a ação corretiva não foi treinar o operador. O operador fez o que o processo permitia. A causa estava no controle do dispositivo. Para reclamações de cliente automotivo, o modelo de ação corretiva 8D segue a mesma lógica, com etapas mais formais.

No PrismaBiz o plano de ação já nasce ligado à não conformidade, e a verificação de eficácia fica registrada no mesmo lugar, o que facilita mostrar o histórico completo ao auditor.

Como verificar a eficácia

Quando há muitas não conformidades abertas

Em sistema recém-implantado, é comum a lista crescer rápido. Antes de tentar tratar tudo ao mesmo tempo, priorize:

  1. o que afeta o cliente ou a segurança do produto;
  2. o que se repete;
  3. o que foi apontado em auditoria externa;
  4. o restante, por ordem de impacto.

Agrupe não conformidades com a mesma causa em uma única análise. Dez registros de instrução desatualizada no posto podem ter uma causa só, como a falta de um caminho de distribuição. E leve a situação da lista para a análise crítica pela direção: se faltam pessoas para tratar as ações, isso é decisão de recurso, e a direção precisa saber.

O que o auditor costuma pedir

Erros comuns