A ISO 9001 é construída sobre a abordagem de processos: em vez de olhar a empresa por departamentos, olha pelo caminho que o trabalho percorre, do pedido do cliente à entrega. O mapa de processos é a forma de mostrar esse caminho em uma página. Ele também é a base para indicadores, riscos, auditoria interna e documentação. Se o mapa estiver errado, o resto do sistema fica torto.

O que a cláusula 4.4 pede

A empresa precisa determinar os processos necessários ao sistema e sua aplicação, e para cada um (detalhes na cláusula 4.4 explicada):

  1. as entradas requeridas e as saídas esperadas;
  2. a sequência e a interação com outros processos;
  3. os critérios e métodos, incluindo monitoramento, medições e indicadores de desempenho;
  4. os recursos necessários;
  5. as responsabilidades e autoridades;
  6. os riscos e oportunidades, conforme a 6.1;
  7. a avaliação dos processos e as mudanças necessárias para que alcancem os resultados pretendidos;
  8. a melhoria dos processos e do sistema.

A 4.4.2 completa: manter informação documentada para apoiar a operação dos processos e reter informação documentada para ter confiança de que eles são realizados como planejado, na extensão necessária. A norma não exige um desenho com o nome de mapa de processos, mas o mapa é a forma mais clara de demonstrar sequência e interação.

Macroprocessos: gestão, principais e apoio

Uma divisão comum agrupa os processos em três tipos:

TipoO que fazExemplos
GestãoDefine rumo, acompanha e melhoraPlanejamento estratégico, análise crítica, gestão de riscos, auditoria interna, melhoria
Principais (ou de realização)Transformam o pedido do cliente em produto ou serviço entregueComercial, projeto, planejamento da produção, produção, inspeção, expedição
ApoioDão condições para os outros funcionaremCompras, recursos humanos, manutenção, metrologia, TI, financeiro

Não há número certo de processos. O critério é que cada processo tenha um dono, uma saída clara e um indicador que faça sentido. Processos demais complicam a gestão; de menos, escondem responsabilidades.

Passo a passo do mapeamento

  1. Siga um pedido. Pegue um pedido real e anote tudo o que acontece com ele, do primeiro contato do cliente até o pós-entrega. Essa lista é a espinha dos processos principais.
  2. Agrupe as atividades em processos com começo, fim e uma saída clara.
  3. Classifique em gestão, principais e apoio.
  4. Desenhe o mapa: os processos principais em sequência no centro, com os requisitos do cliente na entrada e o cliente atendido na saída; gestão em cima; apoio embaixo.
  5. Faça o SIPOC de cada processo, como mostrado a seguir.
  6. Defina, para cada processo, dono, indicadores, riscos e documentos necessários.
  7. Valide com quem executa. O mapa precisa refletir o que acontece, não o organograma.

Antes de começar, confirme o escopo do sistema, porque é ele que define quais processos entram. Veja a cláusula 4.3 e o modelo de escopo e aplicabilidade.

SIPOC: o processo em uma tabela

SIPOC é a sigla, em inglês, de fornecedores (Suppliers), entradas (Inputs), processo (Process), saídas (Outputs) e clientes (Customers). É uma tabela que descreve cada processo de forma rápida e cobre boa parte do que a 4.4 pede. Os fornecedores e clientes podem ser internos: o cliente do processo de compras é a produção.

Exemplo ilustrativo do processo de produção de uma indústria:

ElementoConteúdo
FornecedoresPlanejamento (PCP), compras, almoxarifado, engenharia
EntradasOrdem de produção, matéria-prima aprovada, desenho e instrução na revisão vigente, plano de controle
ProcessoPreparar a máquina, aprovar a primeira peça, produzir, fazer inspeção de processo, identificar e embalar
SaídasPeças conformes identificadas, registros de inspeção, apontamento de produção
ClientesExpedição, inspeção final, cliente externo
DonoSupervisor de produção
IndicadoresÍndice de refugo, eficiência da produção
RiscosQuebra de máquina, setup errado, matéria-prima fora de especificação

Para escolher os indicadores de cada processo, veja os exemplos de indicadores da qualidade. Para levantar e classificar os riscos, a matriz de riscos.

Como mostrar a interação entre os processos

A interação é o que a saída de um processo provoca no outro. Há duas formas práticas de mostrar:

O modelo de mapa de processos e matriz de interação traz as duas coisas.

Exemplo ilustrativo: estamparia de autopeças

Imagine uma fabricante fictícia de 60 funcionários que produz peças estampadas para a cadeia automotiva. O mapa ficou assim:

Um trecho da matriz de interação, lido da linha para a coluna:

Quem entregaPara o planejamentoPara a estampariaPara a expedição
ComercialPedido aprovado com quantidade e prazoRequisitos especiais do clienteCondições de embalagem e entrega
PlanejamentoNão se aplicaOrdem de produção e sequênciaProgramação de embarque
EstampariaApontamento de produçãoNão se aplicaPeças conformes identificadas
ManutençãoParadas programadasPrensas e ferramentas liberadasNão se aplica

Repare que o tratamento superficial terceirizado aparece no mapa. Processo terceirizado continua sob responsabilidade da empresa e precisa estar sob controle do sistema, como pede a cláusula 8.4. No SIPOC da estamparia, o fornecedor de tratamento aparece como cliente das peças estampadas e como fornecedor das peças tratadas, com os requisitos que precisa cumprir.

Na hora de definir os donos, a empresa percebeu que inspeção e expedição tinham responsáveis diferentes e nenhuma regra clara para quem liberava o embarque. O mapeamento resolveu isso antes de virar constatação de auditoria: a liberação ficou com a inspeção, e a expedição só embarca lote com registro de liberação.

Mapa, fluxograma e procedimento

O mapa mostra os processos e como se ligam. O fluxograma detalha as atividades dentro de um processo. O procedimento descreve como fazer. A norma não exige os três para todos os processos. Faça fluxograma ou procedimento onde a falta dele gera erro ou dúvida, como em análise de pedido com muitas variáveis ou em setup de máquina crítica.

Em empresa de serviço ou de obra, a lógica é a mesma. Uma construtora costuma ter como processos principais orçamento, planejamento da obra, execução, inspeção de serviços e entrega com assistência técnica. Uma prestadora de serviço técnico, atendimento ao cliente, programação, execução em campo e encerramento da ordem de serviço. O que muda é o nome das caixas, não o método.

Como manter o mapa vivo

O mapa não é um documento para ficar na parede. Use-o como roteiro:

O que o auditor costuma pedir

Erros comuns